Trabalho de Detecção Olfativa com o Cão

Luiz Makoto Ishibe
 
Existe hoje uma quantidade bastante grande de cães de detecção com sentido olfativo sendo empregado em mundo todo, capazes de encontrar diferentes produtos com eficiência muito superior ao que qualquer tecnologia atualmente disponível possa oferecer.
 
Os objetos clássicos de busca continuam sendo produtos narcóticos, explosivos e pessoas (perdidas, soterramento e outras situações de catástrofe, e de perseguição). Mas existem também aqueles que trabalham na localização de contrabando em aeroportos e postos de fronteira (produtos agrícolas, químicos, armamentos e até dinheiro), cadáveres (ocultamento ou desaparecido) - mesmo enterrados ou submersos, células cancerígenas em corpo humano, perícia de incêndio, identificação de criminosos por associação de cheiro, cupins e outros tipos de parasitas em construção, identificação de áreas de contaminação, identificação de parasitas em agricultura, localização de trufas, etc.
 
Existe também uma categoria bastante específica de cães que trabalham na detecção de produtos e associações de odores para fins legais. São animais utilizados para realização de perícia de cena do crime e são genericamente conhecidos como cães forenses.
 
Esses animais são treinados para identificar coisas como gotículas de sangue que espirrou na parede, resíduo de pólvora de arma em paredes e objetos que estavam pertos do ponto de tiro, associar o cheiro de um objeto abandonado na cena do crime com os suspeitos, encontrar cadáver oculto ou armas e cápsulas de balas escondidos, etc.
 
 
Histórico Policial e Tipos de Trabalhos de Investigação
 
É sabido que os cães farejadores foram utilizados para fins de vigilância e captura (perseguição – escravos, prisioneiros, etc)) desde muito tempo atrás. É possível que os conhecimentos adquiridos com esse tipo de emprego dos cães, conjuntamente com outros endossados em campo de caça tenham possibilitado a formatação de alguns procedimentos investigativos utilizados para ajudar a resolver crimes.
 
É difícil de precisar exatamente quando se iniciou o uso policial de cão de investigação. Mas existem relatos da Polícia Alemã datados do ano de 1901, de uso de cães no procedimento de line up (associação de odor de objeto da cena de crime com suspeitos). Naquela época a indicação canina não era considerada uma prova, mas a informação era relevante na investigação. Hoje, na Alemanha, a indicação de 3 cães treinados no padrão da Academia (Landespolizeischule fur Diensthundfuhrer – NW) no procedimento de line up é aceito como prova legal (Anexo II).
 
Existem muitos países no mundo que utilizam os cães de busca de alguma natureza como recurso policial e de investigação. Os campos de atuação cresceram muito, e os cães estão trabalhando também em outras áreas além da associação de odor.
 
Os farejadores de cadáver humano tem ajudado a localizar corpos ocultos (enterrados, submersos e até concretados). Já houve caso de cão ter localizado um cadáver de 25 anos enterrado a 1 metro de profundidade. Alguns animais desta categoria são treinados também para indicar respingos de sangue (mesmo seco), o que possibilita o levantamento do padrão de espirro ou jorro de sanque quando alguém for ferido (tiro, facada, etc). Com esse padrão definido é possível estabelecer o local exato da agressão e se o corpo, num caso de assassinato, foi plantado ou não.
 
Os cães de detecção de pólvora de munição têm encontrado armas escondidos e cápsulas defragradas. A localização das cápsulas delimita a posição do atirador, informação esta relevante na investigação. Estes cães são também capazes de identificar o resíduo de tiro dos objetos próximos do ponto de disparo.
 
 
O Olfato Canino
 
Até hoje náo houve nenhum método eficiente de precisar a potência do olfato canino. O que se sabe é que a capacidade varia de acordo com a raça e, mesmo dentro da mesma raça, de acordo com o indivíduo. Obviamente os aiomais de focinho curto tendem a ter menor sensibilidade do que os de focinho longos.
 
Numericamente, comparado a humanos que temos cerca de 5 milhões de células olfativas, a diferença é bem grande. Um Basset possui cerca de 120 milhões, um Pastor Alemão em torno de 220 milhões de células olfativas.
 
Cada célula olfativa possue terminações sensíveis à partículas de odor chamado cília (estrutura que lembram minúsculos pelos), que estão cobertos pelo muco. Nós humanos temos cerca de 6 cilias por célula olfativa. Os cães, uma centena ou mais.
 
O lobo olfativo no célebro humano tem um tamanho equivalente a de um grão de ervilha. No Pastor Alemão, mesmo possuindo um célebro menor do que o nosso, o lobo olfativo é do tamanho de uma castanha de noz.
 
Estes dados por si só já impressionam, mas quando analizamos a anatomia das narinas e da fossa nasal dos cães, vamos perceber que tem mais pontos a considerar. As narinas caninas possui um desenho todo particular e é munido de três músculos que mudam a forma e o grau de abertura. Isso permite aos cães criarem um efeito turbilhonamento no ar inspirado distribuindo melhor as partículas de cheiro no interior da fossa nasal do que nós conseguimos.
 
A própria cavidade nasal é também mais únida do que o humano, o que permite dissolver melhor as partículas de cheiro. O muco canino é mais escuro, aderente e proporcionalmente cobre mais área do que o humano, o que potencializa também a fixação das partículas. *(1)
 
As informações até aqui considerados podem ser confirmados com um pouco de estudos. No entanto algumas das suposições mais impressionantes acerca do olfato canino não vêm das pesquisas científicas e trabalhos acadêmicos, mas sim das observações feitas dos trabalhos de busca realizados em mundo todo.
 
Primeiro, as observações de campo sugere que um cão de busca por venteio não perde a trilha do cheiro em nenhum instante depois que o localizou. Mesmo um animal em corrida com respiração ofegante (e com boca aberta) segue a trilha sem demonstrar quebra no padrão. Um trabalho feito por *(2) sugere que o cão consegue manter o fluxo contínuo do ar através das narinas mesmo quando está expirando o ar pela boca. O referido trabalho infere que isso aconteça devido a diferença de velocidade do fluxo de ar via nasal e via oral (região da faringe), o que criaria uma zona de pressão negativa na fossa nazal (efeito Bernoulli). A direção do fluxo foi inferido no referido trabalho por meio de instalação de termômetro de precisão (termistor 1 kohms da Siemens) – o ar expirado é mais quente do que o ar inspirado - na narina de um Pointer Inglês, informação essa transmitida por rádio para estação de coleta de dados que poderia estar localizado a algumas centenas de metros.
 
Segundo, as observações indicam que o cão tem olfato seletivo, ou seja, que consegue cheirar diferentes odores misturados em mais diversas proporções e separar cada um deles. Isso por que o cão consegue indicar com precisão a presença de odor, mesmo no nível residual, num ambiente com predominância absoluta de outros cheiros. Por outro lado você pode apresentar para um cão diferentes odores, tudo misturado, e pedir para ele localizar individualmente um a um. Ele o fará com a mesma eficiência (Anexo I, Experiência 1).
 
Um trabalho feito por *(3) conclui que os cães têm capacidade de gravar diferentes cheiros sem perder a eficiência em indicação. O referido trabalho verificou que na média a eficiência até aumentou depois do quinto odor, resultando em menor tempo de treino para alcançar o objetivo. Indiretamente isso sugere também que o cão incorpora o procedimento de treino depois de um certo tempo. Neste trabalho os cheiros não foram apresentados todos juntos e sim sendo acrescentados periodicamente, até totalizar 10 diferentes fontes.
 
Terceiro, a sensibilidade do olfato canino pode ser ajustado de acordo com a exigência da necessidade. Normalmente o cão não vive vom o olfato ativado no nível de busca e, neste regime latente a impressão que se tem é que a sua sensibilidade não é muito superior ao humano. Muitas vezes se observa cães passando calmamente por petiscos ou brinquedos mesmo que estes estejam na posição favoráveis para serem farejados.
 
Em condições naturais o cão ativa o olfato para busca de comida (caça), identificar odores que marcam o território, busca de parceiro sexual na época do sio das fêmeas e para outras necessidades instintivas.
 
No entanto os cães podem ser induzidos a efetuar busca em troca de recompensa. Nesse processo verifica-se claramente a ajustabilidade da sensibilidade do olfato (Anexo 1, Experiência 2).
 
No regime de busca afinada, por vezes o cão chega a respirar num ciclo supercurto e rápido que pode chegar a frequência superior a 4 vezes por segundo. Sempre que o cão faz isso ele fecha a boca, o que sugere que esse padrão de respiração não tem a função de ventilação pulmonar e sim puramente olfativa. Tudo indica que o ciclo curto e rápido, conjuntamente com o trabalho dos músculos das narinas, causa um turbilhonamento e distribuição do ar na fossa nasal que ajuda a potencializar o olfato. Isso também foi observado no trabalho *(2): .
 
Por fim, com bases nas observações fica claro que o olfato não só é o sentido principal da maioria dos canídeos, mas que também a memória olfativa é um instrumento poderoso que é utilizado para diversos fins. A gravação de cheiros e a capacidade de reconhece-lo tempos depois possibilita os animais a perseguir determinada caça, reconhecer companheiros e até associar o odor a determinadas circunstâncias ou situações. A memória olfativa dos cães selecionados para busca é possivelmente bem mais poderosa do que a nossa memória visual (Anexo I, Experiência 3).
 
A possível predominância do sentido de olfato sobre visão nos cães de busca fica evidenciado no trabalho *(4), onde os cães de detecção de explosivos atuaram com mesma eficiência no ambiente em pleno luz e na escuridão. Em outra palavras, a vantagem visual do ambiente claro não melhorou a eficiência de busca.
 
 
Potencialidade do Trabalho Olfativo Canino nos
Trabalhos de Investigação Criminal
 
Ainda que encontrar filhotes de cães que tenha os impulsos (manifestação de diferentes sentidos instintivos) no nível de excelência não seja fácil, é evidente que as vantagens em utilização de cães de detecção olfativa para qualquer tipo de busca, independente de ser investigação criminal ou não, são muitos.
 
A indicação canina é imediata e, a sensibilidade, ainda que seja uma conclusão empírica, é superior a maioria dos aparelhos que a tecnologia humana pode criar hoje. Além do mais, o cão é um animal com capacidade motora própria, ou seja, não precisamos carregar peso ou volume (exceto os objetos que o processo de busca exige) para usufruirmos desse recurso. E ainda que o protocolo de trabalho em regime de busca exija que o condutor considere a segurança do animal em primeiro lugar, dentro dos parâmetros aceitáveis, o cão pode avançar no terreno que não seria recomendável ou que seria inviável para os humanos.
 
Apesar de exigir uma rotina de treinos periódicos, os cães não carecem passar por revisões ou calibragem regular. O olfato canino, a não ser por doença ou desgaste de uso excessivo ou abusivo, não perde a potência e nem desregula.
 
Por fim quando se fala de custo os números ficam tão díspares quanto a diferença da sensibilidade do olfato humano e o canino. O custo de coletar amostras aleatoriamente e processa-los no laboratório com aparelhos como cromatógrafos e espectrômetro de massa é muito alto – fora o custo dos aparelho, da manutenção delas e o salário dos operadores. Os filhotes de cães selecionados para trabalho e avaliados como excelentes custam em torno de US$ 6000,00 no mercado internacional (possivelmente algo em torno de R$ 3000,00 caso a criação seja brasileira). Depois eles têm que ser treinados, vacinados e vermifugados periodicamente. Soma-se a isso o custo da ração que vai consumir na vida, assim como dos materiais de trabalhos e de treinamento.
 
Ainda assim o custo de um cão de busca de alto nível é apenas uma fração dos custos de equipamentos eletrônicos capazes de identificar partículas nos laboratórios. E eles estarão disponíveis para trabalho todos os dias, por um periodo que pode durar 7 anos ou mais.
 
 
 
 
Anexo I - Experiências
 
1-     Seletividade do olfato canino:
 
É possível treinar um cão para busca de diferentes objetos com um único mote onde cheiro desses objetos estejam todos juntos de forma misturada. Uma vez que o cão grava o cheiro ele é capaz de identificar as fontes separadamente ou misturados em qualquer proporção. Uma Rottweiler chamada Bea foi treinada para busca onde o mote era uma bolinha de borracha, dentro do qual foi colocado pólvora de munição com estopa de algodão. Assim que começou os exercícios, a bolinha, a estopa de algodão e a pólvora foram escondidos separadamente e também em todos os tipos de combinações. A Rott em questão indicava qualquer um dos motes sem distinção. Todos os motes nos exercícios eram escondidos de forma a não ficar visível (p.e. enterrados na palha de grama, debaixo de outros objetos, dentro de blocos de construção, etc). Este tipo de exercícios foram feitos com outros cães de busca, com mesmo tipo de resultado. Existem cães de busca de narcóticos na Alemanha que detecta mais de 70 drogas diferentes. Este cão nunca recebeu treinamento de gravação de cheiro individualmente por produtos. Ele gravou o cheiro em conjunto, mas consegue indicar os produtos um a um ou misturados em qualquer proporção.
 
Conclusão: O olfato canimo consegue isolar e processar as partículas de odor separadamente, mesmo estando em ambiente onde haja interferência de diferentes fontes de cheiro, independentemente da proporção com que se manifestem. Isto vale tanto para o processo de gravação de cheiro quanto para o processo de detecção dos mesmos.
 
 
2-     Ajustabilidade da sensibilidade olfativa canina:
 
Em um treino de cães de detecção de drogas da Polícia Militar do Estado de São Paulo – Divisão de Campinas, foi feito uma experiência para aferição de calibragem da sensibilidade. Nos treinos padrão da polícia o mote de cheiro é escondido e o cão é comandado para encontrar-lo. Neste treino o mote não foi escondido de fato, mas foi esfregado duas vezes num cano metálico. Em seguida um Pastor Alemão de 5 anos chamado Eros foi comandado para realizar a busca na área. Na primeira e segunda passagem pelo cano, o cão nada indicou. Na terceira passagem ele parou para cheirar um pouco mais. Na quarta passagem ele indicou o cano arranhando e latindo. Esse tipo de treino foi realizado com outros cães apresentando mesmo tipo de resultado.
 
Conclusão: O cão trabalha com a sensibilidade olfativa ajustado no nível que está acostumado a ser exigido. Mas se ele nada encontra na área de busca e o seu condutor continua pedindo para ele achar o mote do cheiro, ele passa a aumentar gradualmente a sensibilidade. Para o cão não existe distinção entre um treino e caso real. Ele aceita que, se o condutor está pedindo, o mote do cheiro está escondido em algum lugar.
 
 
3-     Tempo de Gravação de Cheiro:
 
Para um bom cão farejador, o processo de gravar um ou mais cheiro e reconhece-lo posteriormente é um processo simples e natural. Os policiais da Academia Alemã afirmam que um cão farejador selecionado no padrão deles é capaz de gravar o cheiro em definitivo com dois dias de treinamento. A Rottweiler do exemplo 1 indicou o mote enterrado em palha de grama, de fato, com apenas dois dias de exercício. Com uma semana estava indicando pente de armas escondidos em condição de não visibilidade. Um outro cão, Labrador chamado Thor, treinado para farejar cadáver humano, havia passado um período de cerca de 40 dias no canil da Polícia Militar em Ribeirão Preto com dois anos de idade. Na ocasião ele fez alguns exercícios com narcóticos. Três anos depois, com 5 anos de idade, o Thor foi comandado para fazer uma demonstração para a Polícia Militar de Campinas. O exercício foi feito no mesmo local onde foi realizado o treino de busca de narcóticos com os cães policiais. Assim que entrou na área, o Thor indicou o local onde havia sido escondido o produto entorpecente. Ou seja, depois de 3 anos ele indicou o cheiro residual de narcótico que passou através do saquinho plástico e ficou no local.
 
Conclusão: Para um bom cão farejador a memória olfativa é muito mais poderosa do que a nossa memória visual. O tempo de gravação do cheiro é realmente curto (questão de dias) e o reconhecimento do mesmo é virtualmente definitivo. Para os cães treinados para associação de odor, ainda que seja um processo de memória temporária, a gravação de cheiro é feita em 1 ou 2 segundos.
Anexo II
 
Existem cães treinados para localizar pessoas em geral (por exemplo, em catástrofes como soterramento) mas também existem cães treinados para diferenciar cheiros de pessoas ou objetos individualmente. Pelo padrão da Academia Alemã (Landespolizeischule fur Diensthundfuhrer – NW), no procedimento “line up” de associação de odor, o cheiro de 5 diferentes pessoas mais o do suspeito em questão (total de 6) é coletado em tubos de aço inoxidável. Estes 6 motes de cheiro são apresentados à 3 cães preparados para associação de odor, sendo que todos eles recebem imediatamente antes do processo de discriminação o cheiro “padrão” do suspeito (algum objeto abandonado na cena do crime). Se os 3 cães indicarem o mote do suspeito, existe ainda a segunda fase de identificação em que é apresentados dois motes, o do suspeito e um outro proveniente de uma pessoa em situação de tensão (como por exemplo uma pessoa prestes a saltar de para-quedas). Isto por que se o suspeito for de fato culpado ou cúmprice do crime, possivelmente vai estar em estado de tensão na hora da coleta do cheiro. Essa tenção “adiciona” ao cheiro natural da pessoa alguns outros odores, como por exemplo o da adrenalina – importante: este “cheiro adicional” pode, com grande frequência, estar presente também no mote encontrado na cena do crime. Para se ter certeza de que o cão não está viciada em indicar estes “cheiros adicionais”, eles devem passar por treinamento regular para se certificar-se de que trabalham de forma realmente neutra. Mesmo assim realiza-se essa segunda fase para eliminar qualquer possibilidade de erro. Além do mais vale lembrar que antes de iniciar os testes de associação de odor, todos os cães passam por um pré-teste para verificar que eles não têm preferência por nenhum dos tubos ou cheiros.
 
 
Anexo III – Referências:
 
*(1): The Dog Wins By a Nose – Cheril S. Smith – AKC Magazine
 
*(2): Olfaction in Bird Dogs During Hunting – J. B. Steen, L. Mohus, T. Kvesetberg e L. Walloe
 
*(3): Training and Maintaining the Performance of Dogs on a Increasing Number of Odor Discrimination in a Controlled Setting – Marc Williams e James M. Johnston
 
*(4): Domination of Olfaction Over Vision in Explosive Detection Dogs – Irit Gazit e Joseph Terkel