4- Gravação de Cheiro

Luiz Makoto Ishibe
 
Uma vez que o seu cão aprendeu a encontrar um objeto específico (brinquedo) guiado pelo faro, você pode passar para a segunda fase que é a de gravação do cheiro do(s) produto(s) que seja(m) do seu interesse.
 
O bom animal pode gravar cheiros de diferentes produtos sem perder a eficiência. Existem cães de busca de narcóticos que detectam mais de 60 produtos diferentes (maconha e seus derivados, cocaína e seus derivados, meta-anfetamina, diversos tipos de extasy, LSD, ópio, etc); cão de perícia de incêndio criminoso que cheira mais de 15 produtos combustíveis distintos, etc.
 
O mais interessante de tudo isso é que o cão tem o olfato seletivo. Resumindo, você pode dar todos os produtos juntos nos exercícios e mesmo assim ele será capaz de identificar cada um deles separadamente. Se você quer um cão que fareje 5 produtos diferentes, você apresenta a ele todos os 5 misturados. Uma vez gravado o cheiro ele encontrará cada um deles independentemente ou misturados em qualquer combinação e proporção.
 
Mas calma, existe um outro fator mais interessante ainda: se o treino for bem conduzido e o cão tiver aptidão, em 2 dias de treino ele grava o cheiro. Mesmo falando de uma média de cães no Brasil utilizados para busca provavelmente uma semana seria suficiente.
 
Um exemplo: eu tenho um labrador chamado Thor que foi treinado pelo Tenente Rodrigo, um bombeiro de Ribeirão Preto para busca de cadáver. Por razão que aqui não interessa, o canil do bombeiro de Ribeirão foi desativado e como o Thor era cão particular do Tenente Rodrigo ele acabou vindo parar aqui em casa. Mas entre a desativação do canil do bombeiro e a vinda do Thor para cá, ele passou pouco mais de um mês no canil de polícia, onde passou por alguns treinos de busca de narcóticos.
 
Passaram-se quase 3 anos e um dia desses eu estava assessorando o treino dos cães de polícia de Campinas. Foram feitos alguns exercícios de busca de narcóticos com os cães policiais e então fui fazer uma demonstração do Thor com mote de cadáver. O exercício do Thor foi planejado na mesma área onde treinaram os cães policiais.
 
O Thor entrou na área logo que dei o comando. A surpresa geral foi que ele acusou o resíduo do cheiro de produto narcótico do qual ele estava afastado por quase 3 anos. E para se ter idéia do que representa o “resíduo”, o que o Thor indicou foi o cheiro do produto que ficou no local depois de removido o mote, sendo que a droga estava embalada em saquinhos plásticos.
 
A memória olfativa de um cão de busca é muito melhor, proporcionalmente, do que a memória visual que nós humanos temos.
 
Vamos ao treino! A gravação de cheiro é uma fase em que a consistência é muito importante. É realmente desejável que se faça dois treinos por dia (de manhã e à tarde), cada um com 15 a 20 minutos de duração por alguns dias (5 a 6) seguidos. Isso feito o treino específico de busca pode passar para duas vezes por semana por um ou dois meses. Depois disso um treino semanal basta.
 
Note que, se mantiver o treinamento físico e de busca (sem ser específica), mesmo que fique sem sentir o cheiro do mote, um bom animal possivelmente vai conseguir trabalhar mesmo depois de passar um bom tempo (veja o exemplo do Thor).
 
Para os treinos desta fase o(s) mote(s) do(s) cheiro(s) deve(m) ser inserido(s) dentro do brinquedo. O condutor deve brincar com o seu cão e deixar que ele pegue o brinquedo na boca algumas vezes. Veja que o seu cão já tem gravado o cheiro do brinquedo pelos treinos anteriores. O que vai acontecer é que ele vai agora encontrar outros cheiros associados ao do brinquedo.
 
Feito isso esconde-se o brinquedo como sempre fez e solta o cão para a busca. Todo o resto do procedimento é igual. Uma seção de busca, incluindo as brincadeiras preliminares e o agrado de recompensa deve durar algo em torno de 5 minutos. Esse procedimento deve ser repetido 2 a 3 vezes, sendo que o tempo de brincadeira inicial pode ser reduzido gradualmente.
 
É realmente importante a constância dos treinos na primeira semana. A gravação de cheiro em definitivo será muito mais consistente feito numa tacada contínua do que em treinos com interrupções freqüentes.
 
Quando o cheiro já estiver gravado e os treinos passarem para duas vezes por semana você deve seguir alguns passos:
 
1-                     Na primeira semana deve introduzir variações no padrão de treino. Pode-se tornar um ou outro exercício um pouco mais complexo, de forma que o cão leve mais tempo para achar o mote. É importante que o condutor mantenha o cão motivado. Lembre-se que no trabalho real você não tem controle sobre o ambiente. Então é importante que o seu animal não perca a motivação rapidamente. Ele não pode passar a acreditar que a busca sempre culmina em sucesso em um ou dois minutos. Se você já sabia de antemão o objetivo da busca poderia estar treinando o seu cão desde o início com o brinquedo preparado com o mote. Neste caso essa etapa pode ser suprimida e ir direto para etapa 2.
 
2-                     Assim que o animal mostrar consistência nos exercícios (uma ou duas semanas) mais complexos experimente esconder um (dos) mote(s) sem o brinquedo. Nos exercícios iniciais é importante que o mote seja escondido de forma que o animal não consiga ver onde ele está, pois se ele achar a fonte do cheiro e ver que não era o que ele procurava vai causar a frustração. Assim que ele indicar o local, o brinquedo, com TODOS os motes dentro ( caso esteja trabalhando com mais de um produto) deve ser jogado no ponto onde está escondido o mote de busca. Idealmente o cão não deve saber de onde (ou de quem) vem o brinquedo. A idéia é simular uma situação em que, quando o animal acusar o mote, o brinquedo surge do nada. Você pode ter um ajudante para isso. A premiação com brinquedo com TODOS os motes dentro é importante nesta fase pois se assim não fizer o cão pode achar que no segundo exercício deve procurar o mesmo cheiro do primeiro, e não qualquer um dos cheiros em questão. Mais ou menos nesta fase pode-se introduzir o RITUAL (veja o texto “Procedimentos para Iniciar a Busca”) de busca para o seu animal. Uma vez feito isso o procedimento deve sempre ser executado antes da busca.
 
3-                     Quando você acreditar que o seu animal está acusando qualquer um dos produtos de forma consistente experimente premia-lo com um brinquedo que nunca foi usado com motes de cheiro, ou seja, sem o(s) cheiro(s) do(s) produto(s) de busca. Experimente ver como ele se sairá no exercício subseqüente procurando um produto diferente do primeiro.
 
Passando por estas fases podemos dizer que agora você tem um cão de busca de produto(s) específico(s). Mas para a formação do cão de trabalho temos mais alguns passos a seguir.
 
Note que o fato do cão conseguir gravar o cheiro de produtos diferentes abre, em tese, uma possibilidade de se trabalhar com diferentes categoria de produtos, por exemplo: o mesmo cão que fareja cupim para dedetização pode encontrar cadáver, munição de armas de fogo e produtos narcóticos.
 
No entanto mesmo os protocolos dos centros mais avançados em formação de cão de busca têm trabalhado com produtos da mesma categoria. O cão de narcótico só fareja drogas (mas é evidente que maconha, cocaína e extasy são produtos que nada tem a ver um com outro), o cão de explosivo só encontra produtos explosivos, etc.
 
Uma exceção: o cão de busca de cadáver, em termos ideais, deve farejar também pessoa viva. Imagine um caso, ainda que com possibilidade remota, de uma ocorrência de busca em que não mais se espera encontrar sobrevivente. O trabalho passa a ser executado com cão de cadáver, mas a vítima em questão ainda está viva. O cão fareja a pessoa, mas como é cheiro de vivo ele não acusa.